“E” e “Se”, duas pequenas
palavrinhas que quando ditas separadamente parecem tão inofensivas, como
dissera Sophie no exuberante “Cartas para Julieta”, mas quando conjugadas
juntas ganham uma força tão poderosa que pode acompanhar toda uma vida. “E se”
eu tivesse feito isso, “e se” eu tivesse casado com fulano, “e se” eu tivesse
mudado de cidade, “e se” eu tivesse escolhido outra profissão, muitos são os “e
se” que nos acompanham ao longo da nossa história.
Todos os “e se” que vamos
acumulando, vai colocando-nos cada vez mais distante do único tempo real e que
de fato existe na nossa vida: o tempo presente. É no tempo presente que
vivemos, que
escolhemos, que temos a oportunidade de ressignificar e aprender
com o passado (que passou e que não volta), para construir um futuro (que é
vivido no presente), de forma diferente, mais intensa, mais rica e mais
completa.
Porque passado e futuro são
dimensões do presente. E o presente é a totalidade de tudo o que já fomos, tudo
o que somos e tudo o que podemos vir a ser. É somente no presente que podemos
fazer escolhas e são essas escolhas que irão definir todo o restante na nossa
vida, porque a vida é feita de escolhas e nós somos os responsáveis por essas.
A dimensão temporal é tão
marcante e decisiva na nossa vida, que se pensarmos nos traumas, nos complexos,
nos elementos reprimidos, que vão tomando parte no emaranhamento do nosso ser e
determinando o que somos hoje, veremos que só conseguimos desatar esses nós,
para atingir uma vida com mais plenitude, livre da sensação de peso que esses
componentes nos fazem sentir, se pudermos, corajosamente, com a experiência do
hoje, encará-los, vivenciá-los, reelaborá-los e ressignificá-los para que
possam passar a ocupar um outro lugar na nossa vida.
Mas, voltando a tratar do
nosso “e se”, veremos que ele nos aprisiona, nos deixa refém de um passado, uma
decisão, uma escolha que poderíamos ter feito nas nossas vidas, mas que naquele
momento não foi possível de ser feita e precisamos entender e respeitar os
limites nossos e de cada um na sua capacidade de dar os passos necessários ao
que se busca alcançar.
Porém, nem tudo está
perdido, tem a boa notícia, os “e se” também podem ressurgir nas nossas vidas
de uma maneira bem interessante, como uma forma de resgatar no hoje, tempo
presente, com toda a experiência acumulada, aqueles sonhos, projetos, idéias e
ideais, também amores, desejos, que por alguma razão tiveram que ser colocados
para trás em algum momento, mas que podem ser vividos no agora.
Talvez essa seja a função criativa
e libertadora dos nossos “e se”. Se com a maturidade, experiência e sabedoria
da Claire, “Cartas para Julieta”, pudermos buscar algo que deixamos esquecidos
em algum lugar de um passado, mas que pode ainda nos fazer sentir muito felizes
e vivos.
Torço para que você, algum
dia na sua vida, possa reencontrar algum dos seus “e se”.
Boa sorte.
• Ana Cristina Botelho, Psicóloga, CRP-03/01811, atua como facilitadora em programas de treinamento e desenvolvimento comportamental, coach e psicoterapeuta.

